“As mulheres só querem saber de médico”

Um olhar sociocultural sobre o parto entre grupos sociais tradicionais da Amazônia Paraense

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14244./2238-3069.2024/18

Palavras-chave:

parteira; saberes locais; grupo social; cesárea; industrialização.

Resumo

Este artigo analisa a transição do modo de parto entre grupos sociais tradicionais do estado do Pará, focando na substituição das práticas de parteiras por partos hospitalares, predominantemente cesáreas. Embora ambas as formas de parto tenham suas vantagens e desvantagens, a pesquisa enfatiza o enfraquecimento dos saberes locais e a desvalorização das parteiras. A modernização e a industrialização do parto são discutidas à luz de referências teóricas sócio-antropológicas sobre saúde, trabalho, sociedade e modos de vida, destacando a tensão percebida entre parteiras e médicos em territórios tradicionais. Com base em vivências no decorrer de observação participante e diálogos entre ribeirinhos, pescadores artesanais, quilombolas e ameríndios, o texto revela como o parto hospitalar, percebido como sinônimo de modernidade resulta em estigmas associados ao parto natural e à atuação das parteiras.

Biografia do Autor

Leonardo Silveira Santos, Universidade Federal do Pará

Doutorando em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Pará - UFPA, com bolsa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. 

Ruth de Souza Martins, Centro Universitário Metropolitano da Amazônia

Enfermeira formada pelo Centro Universitário Metropolitano da Amazônia - UNIFAMAZ. Participou da Comissão Administrativa na Liga Acadêmica de Saúde Integral da Mulher - LASIM. Exerceu o cargo de monitora de Anatomia Humana (2019.2). Integrante do VI Seminário de Políticas Públicas de Saúde na Amazônia como Organizadora do Evento (2019.2). Atuou como voluntária na Campanha de vacinação contra covid-19 realizado na UNIFAMAZ em parceria com a Secretária Municipal de Saúde de Belém (SESMA). Integrante do Projeto de Extensão Epilepsia em pacientes refratários nos tempos de Covid-19 (2021.2). Integrante do Projeto de Iniciação Científica "Boas práticas baseadas em evidências relacionadas à atenção a Saúde da Mulher" e "Tecnologia Educativa/Cartilha 'A Tuberculose está em casa e agora?' Estudo de validação". Atuando na Referência Técnica de Doenças Crônicas Não Transmissíveis da Secretaria Municipal de Saúde de Belém-PA.

Renilson de Brito Fagundes, Universidade do Estado do Pará

Discente Especialização Garantia dos Direitos e Política de Cuidados à Criança e ao adolescente (Endica-UnB 2024),Acadêmico de Licenciatura em Ciências da Religião (UEPA 2021),Técnico em Informática(Escola Dom Aristides Pirovano-2020) e Tecnologia da Informação pela Universidade Paulista (2015).

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Publicado

2025-03-21