Cruzando a fronteira
Identidade, poder e gênero na profissão médica
DOI:
https://doi.org/10.14244./2238-3069.2024/20Palavras-chave:
Sociologia médica, identidade médica, relação médico-paciente, práticas de gênero, masculinidade hegemônicaResumo
O texto a seguir emerge de uma revisão bibliográfica sobre estudos acerca da formação da identidade médica e da relação entre médico e paciente, que autoriza o profissional médico a ser o detentor de um conhecimento específico sobre os corpos com um diferencial perante outros profissionais: seu saber é socialmente reconhecido como o mais legítimo. Constantemente em ação para se distanciar do seu objeto (doença/paciente), o profissional médico enfrenta dificuldades quando se torna paciente, entendidas na literatura como problemáticas relativas à identidade médica enquanto desempenho profissional. O artigo propõe uma outra perspectiva para a análise dessa questão: o uso do conceito de masculinidade hegemônica para compreender as práticas de gênero entremeadas no lidar com o próprio adoecimento.
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